Autor: Rachel de Queiroz
Título: O Quinze, The Fifteenth, L’année De La Grande Sécheresse
Idiomas: port, eng, fra
Tradutor: Viviane de Guanabara Mury(eng)
Data: 29/12/2004
Untitled Document The Fifteenth
Rachel de Queiroz
(...)Every year, on school vacations, Conceição came to spend some months with her grandmother (who had brought her up since her mothers death) at Logradouro, the old farm of the family, near Quixadá.
There, the girl had her bedroom, her books and, especially, the old friendly heart of Mother Nácia.
She was always tired when she arrived in the farm, and thinner because of the months she spent teaching; and when she returned she was fatter because of the milk she drank by force, which replaced her body and spirit due to her grandmothers kindly care.
Conceicão was twenty-two years old and she did not talk about getting married. Her few flirting attempts had gone with her eighteen years and the time of teaching course; she said happily that she had been born a spinster.
On hearing this, her grandmother shrugged and sentenced that an unmarried woman is a crippled one.
"This girl has some strange thoughts
Would her grandmother be reasonable? Because maybe Conceição had actually "some strange thoughts;" she was writing a book about pedagogy, she scribbled a couple of sonnets and sometimes mentioned Nordau or Renan, authors from her grandmothers library.
She even ventured on socialist literature, and just from those readings came most of her ideas, which her grandmother considered odd and nonsensical.
Used to think by herself, to live alone, she had created her own ideas and prejudices, which were sometimes broad, sometimes bold, and often failed mainly due to the excessive reference to her own house.
2
Leaned against a dry jurema, in the front of the juazeiro that the fellows were little by little mutilating with their scythe, Vicente managed to distribute the green foliage to the cattle.
Famished cattle, with great sharp bones forcing the leather of the rumps, devoured hungrily the sliced foliage spread on the ground.
It was very rare and alarming to be still feeding the cattle in March. Vicente thought dully on what would happen to so many animals if the winter did not come. Food was not enough for even one month.
He had thought of taking part of the cattle up to the mountains. But who knows? In the mountains, there is also lack of resources Food becomes dry there too And the water in the streams also becomes thinner, until it turns into a dripping and transparent thread. Moreover, the journey with no food and no water should be horrible and everything would die.
One cow that was moving away called the boys attention, who shouted:
"Eh, boy! Look at Jandaia!"
And calling for the cowboy:
"João, have you seen how Jandaia has ticks? Even at the snout!
João Marreca looked at the animal full of black warts, covering its udder, legs, and its whole body:
"There are others in a worse state There is lack of anti-ticks drugs And the animals are so weak "
Vicente complained:
"And now, in the high summer, goddamned ticks all over Let it die soon!"
"Just about letting die Do you know that Maroca from Amoeiras said that, if the rain doesnt fall until São Josephs Day, the corral gates should be opened and her employees will have to look for new jobs. There is no more service for anybody.
Scandalized, shocked, Vicente jumped out from the jurema tree where he was leaning:
"But not me! While there are cashew trees and mandacarus here and water in the dam, I will take care of what is mine! That old woman is crazy! So many heads of cattle badly bred."
And, after a pause, starring at a rag of cloud on the distant sky:
"And if the food finishes, then, well think of something else. I am not going to leave my employees in such a disgrace. He who eats the meat has to gnaw at the bones
The cowboy beat the pipe on a branch and cleared his throat as a nodding. Vicente went on:
"Who I really pity is her cowboy Poor Chico Bento, he has to live by himself in these hard times with such a big family ."
"He is already making up his baggage. He said he is going to Ceará and, then, to the North ."
Vicente turned to his old chicken, while the cowboy made a comment:
"It doesn't even look like as if this animal is eating corn every day. It's so thin! "
Vicente mounted:
"You stay here, until it finishes. I have things to do at home."
Jerking along the wide road, he rode away quickly, his breast half exposed, totally red because of the sun, which, up in the sky, was shining alone, spread above the gray and dry land a ray of light that was like fire.
Getting home, his father, who smoked a cigarette lying down on a hammock at the verandah, joined his son:
"How about the food?"
"Good The cattle is eating it."
"And the ticks? Hasn't my father seen those animals that graze next to the fences lagoon yet? It is a pity! I am going to buy more anti-ticks drug in Quixadá."
The major quoted:
"There is nothing to sell in Quixadá. Maybe you can find something at Logradouro. Last Sunday Inácia bathed all her cattle."
The man, getting in his house:
"Well, then, after lunch, Ill go there."
*
Vicente mounted on his horse again and rode on the red and stony road, full of black branches from the dead vegetation. The animals hoofs seemed to make fire from the pebbles on the way. Geckoes ran over dry leaves on the floor, which crackled like burned paper.
The sky, so transparent that caused pain, vibrated, trembling like a drawn bandage.
Vicente felt a dry impression of heat and roughness all over the place .
Green, in the gray monotony of the landscape, only some cashew tree that had escaped from the devastation of the foliage; but, in general, the poor trees had a deplorable appearance, showing their pieces of branches as amputated limbs and the entire shell scraped in great white zones.
And the floor, which had been shaded a long time ago, was a desolated mixture of dry branches, whose aggression was intensified by the thorns.
*
(...)
Translated by Viviane de Guanabara Mury. Revised by LL.
Rachel de Queiroz
(...)Todos os anos, nas férias da escola, Conceição vinha passar uns meses com a avó (que a criara desde que lhe morrera a mãe), no Logradouro, a velha fazenda da família, perto do Quixadá.
Ali tinha a moça o seu quarto, os seus livros, e, principalmente, o velho coração amigo de Mãe Nácia.
Chegava sempre cansada, emagrecida pelos dez meses de professorado; e voltava mais gorda com o leite ingerido à força, reposta de corpo e espírito graças ao carinho cuidadoso da avó.
Conceição tinha vinte e dois anos e não falava em casar. As suas poucas tentativas de namoro tinham-se ido embora com os dezoito anos e o tempo de normalista; dizia alegremente que nascera solteirona.
Ouvindo isso, a avó encolhia os ombros e sentenciava que mulher que não casa é um aleijão...
— Esta menina tem umas idéias!
Estaria com razão a avó? Porque, de fato, Conceição talvez tivesse umas idéias; escrevia um livro sobre pedagogia, rabiscara dois sonetos, e às vezes lhe acontecia citar o Nordau ou o Renan da biblioteca do avô.
Chegara até a se arriscar em leituras socialistas, e justamente dessas leituras é que lhe saíam as piores das tais idéias, estranhas e absurdas à avó.
Acostumada a pensar por si, a viver isolada, criara para seu uso idéias e preconceitos próprios, às vezes largos, às vezes ousados, e que pecavam principalmente pela excessiva marca de casa.
2
Encostado a uma jurema seca, defronte ao juazeiro que a foice dos cabras ia pouco a pouco mutilando, Vicente dirigia a distribuição de rama verde ao gado. Reses magras, com grandes ossos agudos furando o couro das ancas, devoravam confiadamente os rebentões que a ponta dos terçados espalhava pelo chão.
Era raro e alarmante, em março, ainda se tratar de gado. Vicente pensava sombriamente no que seria de tanta rês, se de fato não viesse o inverno. A rama já não dava nem para um mês.
Imaginara retirar uma porção de gado para a serra. Mas, sabia lá? Na serra, também, o recurso falta... Também o pasto seca... Também a água dos riachos afina, afina, até se transformar num fio gotejante e transparente. Além disso, a viagem sem pasto, sem bebida certa, havia de ser um horror, morreria tudo.
Uma vaca que se afastava chamou a atenção do rapaz, que deu um grito:
— Eh! menino, olha a Jandaia! Tange para cá!
E chamando o vaqueiro:
— Você viu, compadre João, como a Jandaia tem carrapato? Até no focinho!
O João Marreca olhou para o animal que todo se pontilhava de verrugas pretas, encaroçando-lhe o úbere, as pernas, o corpo inteiro:
— Tem umas ainda pior... Carece é carrapaticida muito... E as reses assim fracas...
Vicente lastimou-se:
— Inda por cima do verãozão, diabo de tanto carrapato... Dá vontade é de deixar morrer logo!
— Por falar em deixar morrer... O compadre já soube que a Dona Maroca das Aroeiras deu ordem pra, se não chover até o dia de São José, abrir as porteiras do curral? E o pessoal dela que ganhe o mundo... Não tem mais serviço pra ninguém.
Escandalizado, indignado, Vicente saltou de junto da jurema onde se encostava:
— Pois eu, não! Enquanto houver juazeiro e mandacaru em pé e água no açude, trato do que é meu! Aquela velha é doida! Mal empregado tanto gado bom!
E depois de uma pausa, fitando um farrapo de nuvem que se esbatia no céu longínquo:
— E se a rama faltar, então, se pensa noutra coisa. Também não vou abandonar meus cabras numa desgraça dessas... Quem comeu a carne tem que roer os ossos...
O vaqueiro bateu o cachimbo num tronco e pigarreou um assentimento. Vicente continuou:
— Do que tenho pena é do vaqueiro dela... Pobre do Chiquinho Bento, ter que ganhar o mundo num tempo destes, com tanta família!...
— Ele já está fazendo a trouxa. Diz que vai pro Ceará e de lá embora pro Norte...
Vicente se dirigiu ao seu velho pedrês, enquanto o vaqueiro comentava:
— Nem parece que este bicho come milho todo dia... Já tão descarnado!...
Vicente montou:
— Vocês fiquem por aqui, até acabar. Eu tenho que fazer lá em casa.
Sacudido pela estrada larga do quartau, seguiu rápido, o peito entreaberto na blusa, todo vermelho e tostado do sol, que lá no céu, sozinho, rutilante, espalhava sobre a terra cinzenta e seca uma luz que era quase como fogo.
Chegando em casa, o pai, que fumava numa rede do alpendre, foi-lhe ao encontro:
— Que tal a rama?
— Boa... o gado vai comendo...
— E o carrapato?
— Ah, o carrapato é que está ruim. Meu pai ainda não viu aquelas reses que pastam lá para a lagoa cercada? Faz pena! Vou até mandar buscar mais carrapaticida em Quixadá.
O Major atalhou:
— Em Quixadá não tem de venda. Pode ser que se encontre um resto é no Logradouro. Domingo, a comadre Inácia banhou a gado dela todo.
O moço foi entrando em casa:
— Então, depois do almoço vou lá.
*
Novamente o cavalo no pedrês, Vicente marchava através da estrada vermelha e pedregosa, orlada pela galharia negra da caatinga morta. Os cascos do animal pareciam tirar fogo nos seixos do caminho. Lagartixas davam carreirinhas intermitentes por cima das folhas secas do chão que estalavam como papel queimado.
O céu transparente que doía, vibrava, tremendo feito uma gaze repuxada.
Vicente sentia por toda parte uma impressão ressequida de calor e aspereza.
Verde, na monotonia cinzenta da paisagem, só algum juazeiro ainda escapo à devastação da rama; mas em geral as pobres árvores apareciam lamentáveis, mostrando os cotos dos galhos como membros amputados e a casca toda raspada em grandes zonas brancas.
E o chão, que em outro tempo a sombra cobria, era uma confusão desolada de galhos secos, cuja agressividade ainda mais se acentuava pelos espinhos.
*
(...)
________________Fonte: QUEIROZ, Rachel de. O Quinze. 49ª edição. Rio de Janeiro, José Olympio, 1992, p. 4-7.
L’ANNÉE DE LA GRANDE SÉCHERESSE
Rachel de Queiroz
(...)Chaque année, durant les vacances scolaires, Conceição venait passer quelques mois avec sa grand-mère (qui l’avait élevée depuis la mort de sa mère) au Logradouro, la vieille propriété de la famille, non loin de Quixada.
Le jeune fille y avait sa chambre, ses livres, et surtout le vieux cœur affectueux de Maman Nácia.
Elle arrivait toujours fatiguée, amaigrie par les dix mois d’enseignement; et elle repartait plus robuste de tout le lait ingurgité de force, reposée de corps et d’esprit grâce à la vigilante tendresse de sa grand-mère.
Conceição avait vingt-deux ans et ne parlait jamais de se marier.
Ses quelques tentatives amoureuses s’étaient envolées avec ses dix-huit ans et le temps de l’école normale; elle disait en riant qu’elle était née vieille fille.
Lorsqu’elle entendait cela, sa grand-mère haussait les épaules et disait sentencieusement qu’une femme sans mari est un infirme...
«Cette petite a de ces idées!»
Aurait-elle raison, sa grand-mère? Car Conceição avait peut-être bien «de ces idées»; elle écrivait un livre de pédagogie, avait déjà griffonné deux sonnets, et il lui arrivait quelquefois de citer Nordau ou le Renan de la bibliothèque de son grand-père.
Elle avait même été se risquer jusque dans des lectures socialistes, et était justement de ces lectures que lui venaient les pires de «ces fameuses idées» qui semblaient étranges et absurdes à sa grand-mère.
Habituée à penser par elle-même, à vivre isolée, elle s’était créé à son propre usage des idées et des concepts personnels, parfois larges, parfois audacieux, et qui péchaient par leur trop vive marque d’origine.
2
Appuyé au tronc see d’un jurema , devant le juazeiro que mutilait peu à peu la machette de ses hommes, Vicente dirigeait la distribution des ramures vertes au bétail. Des bêtes maigres, avec de grands os pointus perçant sous la peau des hanches, dévoraient en toute confiance les pousses éparpillées à la pointe des coutelas sur le sol.
Il était rare et alarmant d’avoir encore, en mars, à nourrir le bétail. Vicente pensait avec inquiétude au sort qui attendait toutes ces bêtes, si réellement l’hiver n’arrivait pas. Il ne restait déjà plus assez de branchages pour tenir encore un mois.
Il avait pensé un temps à retirer une partie du bétail dans la montagne. Mais à quoi bon? En montagne aussi les ressources finissent par manquer... Là aussi les pâturages se dessèchent... Là aussi l’eau des ruisseaux s’épuise, s’épuise jusqu’à se transformer en un mince filet transparent et coulant goutte à goutte. Et en plus, le trajet sans garantie de pâturage ni d’eau serait sans doute épouvantable, toutes les bêtes mourraient.
Une vache qui s’éloignait attira l’attention du garçon, qui se mit à crier:
«Eh! toi, gare à la Jandaia ! Pousse-la par ici!»
Puis, appelant le maître vacher:
«Tu as vu, compère João, toutes les tiques sur la Jandaia? Jusqu’au museau!»
João Marreca regarda vers l’animal tout constellé de verrues noires formant des noyaux durs sur les mamelles, les pattes et tout le reste du corps:
«J’en ai vu des pires... Ce qu’il faudait, c’est une bonne dose d’insecticide... Et puis, faibles comme elles sont...
— En plus de ce satané été, se plaignit Vicente, voilà cette cochonnerie de tiques... Ça donne envie de laisser crever tout de suite!
— A propos de laisser crever... Vous avez su que Dona Maroca des Aroeiras a ordonné d’ouvrir les barrières, s’il ne pleut pas d’ici la Saint-Joseph? Et ses gens n’auront plus qu’à prendre la route... Il n’y a plus de service pour personne.»
Scandalisé, indigné, Vicente se retira brusquement du jurema contre lequel il s’appuyait:
«Eh bien, pas moi! Tant qu’il y aura debout des juazeiros et des mandacarus , et de l’eau dans les barrages, je m’occuperai de ce qui est à moi! Cette vieille est complètement folle! Quel gâchis, avec des bêtes pareilles!»
Et après un silence, les yeux fixés sur des lambeaux du mage qui s’estompaient dans le ciel lointain:
«Et si l’on manque de branchages, on trouvera autre chose. Et puis, je ne vais pas abandonner mês hommes dans une si mauvaise passe... Quand on a mangé la viande, il faut aussi ronger les os...»
Le vacher sa pipe contre un tronc et se raela la gorge en signe d’assentiment.
«Celui qui me fait de la peine, poursuivit Vicente, c’est son vacher... Pauvre Chico Bento, être obligé de s’en aller, par des temps pareils, et avec toute sa famille!...
— Il est déjà à faire son balluchon. D’après ce qu’il dit, il va à Ceará et ensuite vers le nord...»
Vicente se dirigea vers son vieux cheval moucheté.
«Restez par ici jusqu’à ce que vous ayez fini. Moi, j’ai à faire à la maison.»
Balancé par l’allure ample de son cheval trapu, il s’éloigna rapidement, la poitrine visible sous sa chemise ouverte, toute rouge et grillé par le soleil qui, là-haut dans le ciel, solitaire, flamboyant, déversait sur la terre gris cendre et sèche une lumière qui était presque comme du feu.
Dès son arrivée, le père qui fumait dans un hamac de la terrasse sortit au-devant de lui:
«Alors, ces branches?
— Pas trop mal... Les bêtes finissent par s’y mettre...
— Et les tiques?
— Ah, c’est ça qui est mauvais. Tu n’as pas ou encore les bêtes qui paissent vers la clôture de l’étang? Une vraie pitié. Je vais même refaire chercher du produit à Quixada.»
Le Major l’arrêta:
«A Quixada, il n’y en a plus à vendre. On aurait peut-être encore des chances d’en trouver au Logradouro. La commère Inácia en a fait passer sur tout son bétail.»
Le garçon pénétra dans la maison:
«Alors, après le déjeuner, je vais là-bas.»
*
A nouveau sur son cheval, Vicente avançait au pas sur la route rouge et pierreuse bordée par le buissonnement noir de la caatinga morte. Les sabots de l’animal paraissaient tirer du feu des cailloux de la route. Parfois, des lézards détalaient sur les feuilles sèches du sol qui crépitaient comme du papier brulé.
Le ciel transparent à en faire mal aux yeux vibrait, tremblant comme un voile de gaze tendu.
Vicente éprouvait partout une aride impression de chaleur et de dureté.
Seul, vert dans la monotonie gris cendre du paysage, parfois un juazeiro qui avait échappé au pillage de ses branches; mais, le plus souvent, les pauvres arbres apparaissaient tous pitoyables, exhibant les moi gnons de leurs branches comme des membres amputés, et les grandes marques blanches de leur écorce entièrement pelée.
Et le sol autrefois couvert d’ombre n’était plus qu’on fouillis confus et désolé de buissons secs, que les épines rendaient plus agressifs encore.
*
(...)