Palavras-Chave:
História e Literatura – Ismaïl Kadaré – literatura albanesa.
Entre História
e Literatura: A
CONCEPÇÃO DE HISTÓRIA NO LIVRO “OS TAMBORES DA
CHUVA” de Ismaïl
KADARÉ
Maria Carolina Akemi Sameshima
Unesp-Franca
Antonio Candido,
em Literatura e Sociedade, escreveu que a literatura é uma
forma de comunicação social, por isso é uma
relação inte-rhumana organizada por fatores internos
e externos. Os elementos internos são, por exemplo, a estrutura
da narrativa. Enquanto que os elementos externos são os sociais.
Porém, para esse autor a relação entre literatura e sociedade
vai além, pois esses elementos que citamos como externos na verdade
tornam-se internos em uma obra literária, ou seja, um fator da
própria construção artística (CANDIDO, 1967, p.
20).
Em Ismaïl
Kadaré podemos perceber justamente esse movimento de que Antonio Candido
nos fala. Este autor albanês mostra através de suas obras a
história de seu país, mas ao mesmo tempo constrói
narrativas que não possuem lugar especifico, ou seja, está
relacionada com a nossa sociedade de maneira geral. Prova disso é um
outro livro seu chamado Abril Despedaçado que ficou
conhecido no Brasil pela versão cinematográfica de Walter Salles,
que ainda o adaptou para a nossa região nordestina. Acredito que
é nesse sentido que Aristóteles percebeu a literatura como algo
universal, e a história, como algo do campo do específico.
É importante lembrar que a literatura não é o reflexo do
“real”, mas é construída dentro de nosso
arcabouço mental, ou seja, é construída a partir das
nossas possibilidades. Kadaré constrói seus livros, não
apenas Os tambores da chuva, a partir de sua própria
história, de seu conhecimento e experiência na Albânia sob a
ditadura de Hodja.
Ismaïl
Kadaré nasceu na pequena cidade de Gjirokastra, no sul da Albânia,
em 1936. Filho de um funcionário dos correios estudou Letras e Filosofia
na Universidade de Tirana. No final dos anos 50, com seu país sob
domínio soviético, foi para Moscou concluir seus estudos
literários no Instituto Gorki. Teve de interromper os estudos quando
Enver Hodja, então ditador da Albânia, rompe
relações com a URSS. Já era, então, um escritor
bastante popular em seu país, com coletâneas de poesias
publicadas. Foi quando começou a escrever romances que começaram
os problemas para o autor. Seus livros quando não eram proibidos por
decreto, o que aconteceu com quatro deles – Concerto no fim de inverno,
O
palácio dos sonhos, O
Monstro e Luar - sofriam proibição de qualquer
referência a eles na imprensa albanesa.
Segundo o
próprio autor, numa entrevista concedida a Tirthankar Chanda, em setembro
de 1998, disponível no site www.france.org.br/abr/label , seu gosto pela
escrita começou com dez anos de idade quando leu pela primeira vez Macbeth, de William Shakespeare. E depois aos
vinte anos teve contato com a literatura antiga:
Fiquei
tão perturbado que copiei toda a peça a mão. Shakespeare
é o maior escritor do mundo. É o mais completo de todos, mais
visionário do que os escritores da Antigüidade, com os quais eu
também tenho uma grande dívida. Foi com a idade de vinte e sete a
vinte e oito anos que descobri a literatura grega antiga propriamente dita.
Fiquei impressionado com a modernidade das tragédias de Ésquilo,
que pareciam refletir as minhas preocupações de escritor
dissidente diante de um Estado totalitário em pleno século XX.
Kadaré
também foi bastante influenciado pelos escritores franceses do
século XIX, como Balzac, Zola e Flaubert. Essa influência da
literatura francesa é explicada pelo próprio autor como uma
tradição em seu país, que possui uma elite
francófila desde os tempos da Revolução Francesa, mas que
foi suprimida pela influência russa durante a Guerra Fria.
A
literatura francesa é, aliás, muito lida na Albânia, onde
existiu durante bastante tempo uma elite francófila muito grande, como
na Grécia ou na Romênia. As idéias progressistas oriundas
da Revolução Francesa tiveram um papel preponderante na
evolução dos países dos Bálcãs. Na
Albânia também, a intelligentsia adotou as idéias
antimonarquistas, que aplicou contra o império otomano. Mas os
comunistas suprimiram o francês nas escolas para substituí-lo pelo
russo. (Ibidem)
Em 1990, cinco
anos após a morte de Hodja, Kadaré pede asilo político
à França. É interessante notar que mesmo sob regime de
censura, seja parcial ou total, de suas obras, Kadaré permanece na
Albânia. A explicação dada pelo autor é de que sua
saída da Albânia durante o regime de Hodja não teria
serventia alguma, mas em 1990, quando deixa seu país natal, existia uma
possibilidade de abertura democrática. As obras de Ismaïl
Kadaré disponíveis em português são: Abril
despedaçado, Concerto no fim
do inverno, Dossiê H,
O palácio dos sonhos,
todos editados pela Companhia das Letras, Três cantos fúnebres para Kosovo
e A Ponte dos Três Arcos,
editados pela Objetiva.
Segundo François Dosse, a história nasceu da necessidade
pela busca da verdade, por isso esse gênero foi se distanciando
lentamente da literatura. Na antiguidade, um personagem começa a
aparecer, o hístor, em oposição ao aedo.
Cabia ao hístor “retardar o desaparecimento dos
traços da atividade dos homens”, dessa forma a história e a
memória passam a caminhar juntas. (DOSSE, 2003, p. 13).
Essa tentativa de “aprisionar a morte e fazer com que as grandes
façanhas [...] não caiam no esquecimento” (Ibidem) é
justamente a função de um dos personagens do livro de
Kadaré, o cronista Mevla Tcheleb. Para imortalizar os sucessos
dos comandantes do exército turco, Tcheleb acompanha, ou tenta
acompanhar os acontecimentos de perto, da linha de frente, com o objetivo de
fazer uma história com o máximo de detalhes que comprovem a
veracidade de sua escrita. No entanto, uma questão incomodava Tcheleb,
como descrever de modo heróico pessoas com atributos nada
heróicos?
(...) Enquanto seguia os generais com os olhos, Tcheleb tratava de
encontrar qualificativos que incorporaria aos nomes de cada um na sua
crônica. Porém, os qualificativos eram poucos, eram fracos e em
sua maioria tinham sido empregados em excesso pelos cronistas mais antigos,
banalizando-os. Além do mais, havia que por de lado os principais
louvores, reservados para uso exclusivo do comandante-chefe [...].
(...)
Excetuando-se o comandante-chefe e Karamukbil, que tinham rostos ovais
e regulares, e naturalmnte o allaibeu, que ostentava a bela estampa da maioria
dos seus iguais, as fisionomias dos demais pareciam propositalmente talhadas
para dificultar o oficio do cronista. À mente deste involuntariamente
ocorriam coisas nada próprias de um heróico relato de feito
d’armas, como o terçol no olho de Olltch Karaduman, a asma do
mufti, a dentadura saliente de Utch Kurtogmuz, as frieiras de seu
homônimo Utch Tundjurt, corcundas, pescoços truncados,
braços longos como de espantalhos, gorduras ostentadas por um ou outro,
e principalmente os pêlos encravados no nariz de Kurdishdji, que
já na noite anterior tirara o sono do cronista. (KADARÉ, 2003, p.
28-29)
Esse trecho
mostra uma discussão de grande polêmica na historiografia: a
construção dos acontecimentos históricos pelo historiador,
tal qual faz um romancista. Para Paul Veyne, em Como se escreve a
História, o historiador trabalha como um romancista, pois
coloca os fatos, pré-selecionados e hierarquizados, numa intriga. Essa
disposição é “muito pouco científica de
causas materiais, de fins e de acasos: um relato de vida, enfim, que o
historiador recorta à vontade e no qual os fatos têm
ligações objetivas e sua importância relativa”
(VEYNE, 1995 p. 36).
Outra
questão é a da neutralidade do historiador com
relação ao seu objeto. Ainda mais se pensarmos que na
situação de Tcheleb, ou seja, ele escrevendo sobre um fato no
qual ele participa e presencia. Como resolver então a questão
entre realidade observada e o olhar que o observa? Sobre essa questão,
Hayden White escreveu que não existe uma realidade pré-definida e
absoluta a espera de ser explicada pelo historiador. Pelo contrário,
assim como na literatura, a história é também
construção, ou como o autor prefere, uma urdidura do texto.
As fontes históricas, tão preciosas para dar o caráter
científico a disciplina, são também construídas e
nomeadas como fontes pelo historiador (WHITE, 1994, p. 55). Como Mevla Tcheleb,
os historiadores escolhem os fatos e os acontecimentos importantes de serem
imortalizados, os materiais que servem de prova também passam por uma
seleção e hierarquização, as próprias
causalidades são construídas pelo historiador ao urdir o texto:
(...) No princípio, assim que encontrara a expressão,
pusera-se à procura de uma metáfora para os soldados que nadavam
naquele mar e trouxera à memória todos os seres marinhos, mas
nenhum lhe parecera a altura de tão gloriosos guerreiros (KADARÉ,
2003, p. 295).
Outra
questão que preocupa Mevla Tcheleb diz respeito aos fatos que devem ser
mencionados, como já vimos anteriormente, e as personagens que devem ser
mencionadas. Numa conversa, o chefe da intendência disse ao cronista:
— Usualmente vocês, cronistas, reservam todos os
méritos dos feitos d’armas para o comandante supremo –
comentou o intendente –, mas quero dizer-lhe uma coisa, preste
atenção, Tcheleb: depois do comandante, as maiores
responsabilidades vêm para aqui – e apontou para a própria
fonte. (Ibidem, p. 31-32)
Mevla Theleb refletiu que as crônicas jamais mencionavam o
trabalho de desamarrar e amarrar o equipamento, embora ele parecesse consumir
metade do tempo dos soldados. (Ibidem, p. 33)
Tcheleb percebeu que os soldos também jamais eram lembrados nas
crônicas militares. (Ibidem, p. 35)
— Para dizer a verdade, este Império sem fim, que orgulha
a todos nós, expandiu-se por meio desses pés cheios de calos e
frieiras. (Ibidem, p. 36)
Esses
aspectos do ofício do historiador encontrados no livro de Kadaré
nos lembra o manifesto da Escola dos Annales contra a maneira que os
metódicos tratavam os acontecimentos e os sujeitos históricos. Na
visão dos Annales, a Escola Metódica se
importava com o tempo curto, ou seja, o tempo do evento, e se preocupava apenas
com os grandes acontecimentos e com as grandes personalidades. Quando na
verdade a ênfase deveria estar na longa e media duração, na
história social, ou seja, coletiva e acima de tudo na multidisciplinariedade.
Outro aspecto
importante sobre a maneira que a história é escrita, é,
por exemplo, a diferença entre as palavras do arquiteto e a
crônica que esta sendo escrita por Tcheleb. Em certa altura do livro,
quando mostrava seus desenhos, esquemas e planos para atacar o castelo, as
palavras do arquiteto são caracterizadas como palavras sem vida,
(Kadaré, 2003, p. 44). Enquanto o cronista une artisticamente as
palavras para imortalizar a história dos sucessos turco na campanha
albanesa, o arquiteto através de projetos e esquemas tenta encontrar a
maneira mais eficaz de derrotar o inimigo.
Portanto,
notamos que no livro o cronista aparece entre aqueles que sabiam algo mais
sobre o destino, (Ibidem, p. 21). Podemos ainda notar, a importância
dada à história e aos historiadores em poder explicar o presente,
através do passado, e propor um sentido para os desígnios
humanos, como na historiografia iluminista, com Kant, ou mesmo fazendo
projeções sobre o futuro, como em Condorcet.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Porto Alegre: Editora UFRS, 2002.
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KADARÉ,
Ismaïl. Os tambores da chuva. São Paulo: Companhia das Letras,
2003.
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Kalouste Goulbenkian, s/d.
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REMOND,
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