Abstract:
The article brings about the research and the creative process from the moviemaker Glauber Rocha for the motion picture “God and the Devil in the Land of the Sun”. The conception of nation proposed by Glauber is composed by the community's culture of “sertão” the desert of Brazil. The identity process is denied in the name of the faith. The author reaches a conclusion that the sertanejo does not confirm a nation building power. However, the author brings to the film the conception of diversity and the aesthetic of Villa Lobos and shows that the nation does not allow a synthesis understandable for the enlightened discourse. Fragments that expose the power of diversity that challenge the nation state projects being it conservative or revolutionary compose the Brazilian nation.
Palavras chave: Nação, arte, Sertão, mitologia, identidade.
GLAUBER ROCHA E A
NAÇÃO BRASIL
Tereza Ventura
Universidade
do Estado do Rio de Janeiro
“Todos os povos incultos cantam e agem, cantam sobre o
que fazem e, assim, cantam histórias. Suas canções
são o arquivo de seus povos, o tesouro de sua ciência e
religião.”
HERDER
“Não vale mais a
sentença clássica de Euclides: O sertanejo não é
antes de tudo, um forte. É antes de tudo um servo da mais primitiva
condição, é um fraco e um passivo.”
GLAUBER
ROCHA
Este artigo é baseado
em textos e relatos escritos por Glauber, durante viagens e pesquisas no
sertão do Brasil entre os anos de 1959 e 1963. Esse material serviu de
base para obra fílmica Deus
e o Diabo na Terra do Sol.
Glauber fundamenta sua abordagem da nação na
tradição oral e no relato de nativos com os quais o cineasta teve
contato pessoal. O autor dramatiza a mitologia popular sertaneja em personagens
reais como cangaceiros, beatos, camponeses e matadores de modo a mostrar sua
visão de mundo e colocá-los como intercessores de sua narrativa.
Os textos escritos à parte do
roteiro oficial de Deus e o Diabo nos
mostram que o sertanejo desautoriza uma expectativa revolucionária e não se afirma como força
cultural da nação. Glauber não esconde o pessimismo em
relação ao destino do país. A nação se
compõe como tragédia no gesto, ao mesmo tempo, crítico e messiânico
em que a própria afirmação da identidade é negada a favor da promessa
redencionista de um mundo fundado na fé. Por outro lado, a
nação se encontra a margem da história, ausente e sem
vínculos com um projeto nacional. O autor apresenta uma terceira via de
lidar com o nacional nem o conservadorismo nostálgico e paternalista
presente no regionalismo, nem a instrumentalização
política proposta pelo CPC, mas a sua inserção num
discurso propriamente artístico e plural, tal como Villa Lobos havia
criado na música.
A Ira de Deus se transformou em Deus e o Diabo
na Terra do Sol. Entre a primeira versão
em 1959 e a última versão do texto e roteiro, Glauber realizaria
várias pesquisas no sertão. Glauber busca no sertão os
rastros de um imaginário nativo que quer expressar em sua obra
fílmica. Tratava-se de contribuir para a invenção de um
povo-nação que não estaria presente na cultura dominada.
O sertão deserto de Cocorobó lembra as
histórias que o avô contava para o Glauber menino em
Vitória da Conquista. Naquele sertão, o diabo se mistura à
vida do povo, “espelhando sua revolta diante do leito seco dos rios e do
sol do meio dia”. Glauber estava na fronteira com o Sertão do
Bendengó, por onde passou Antônio Conselheiro.
“Neste Bendengó, os homens andam de mãos dadas
com o diabo, mulheres e meninos ciscam como cabras e galinhas as migalhas dos
motoristas de caminhão... cenário de guerra de Canudos.”
(ROCHA:
dez/1963: 14)
Na narrativa de Glauber, as
ruínas da guerra ainda se misturam à memória selvagem dos
sobreviventes. A natureza se exalta, e no momento da fome, mulheres e meninos
se assemelham aos animais. A despeito da miséria e da animalidade, a
fome reflete os mitos e enigmas, a partir dos quais, os nativos dissimulam a
consciência da dominação e a indignidade de sua
condição. Será pela denúncia e pela inversão
dessa cultura que Glauber vai reconstruir uma idéia de
nação. O autor buscava na cultura sertaneja elementos
representativos de um sentimento de nação e investia sua pesquisa
na tradição oral remanescente no relato desses agentes.
Centelhas de uma história, escavações de ruínas que
Glauber buscava tornar presente a partir da sua obra. A distância
histórica do sertão em relação à modernidade
torna o discurso desses personagens um signo alegórico que o autor
reconstrói em sua obra2. Tio Ciríaco, José,
Maria Mamede e Major Rufino, verbos incontidos que anunciam para Glauber a
memória trágica do caos, da guerra.
Glauber buscou captar e criar imagens que
ficaram, reminiscências de uma cultura orgânica que não se
dissolveram na imposição do colonialismo e que revelam um modo de
vida desvinculado do processo de colonização e
modernização do ocidente. Essa cultura, esse universo de
representações, crenças e costumes, se tece como fonte de
utopia porque possui como virtualidade a incompatibilidade com o complexo
colonial que a reprime. Glauber procurava registrar em sua narrativa a
essência de uma cultura que para ele seria o substantivo de sua
nação porque intocada pelo processo civilizatório. Mas o
autor nos faz entrever que esta cultura não desafia a
dominação imposta pelo processo racionalizador do ocidente. Sua
narrativa não esconde o pessimismo em relação ao destino
do país. A utopia se compõe como tragédia no gesto, ao
mesmo tempo, crítico e messiânico em que a própria
afirmação da identidade é negada a favor da promessa
redencionista de um mundo fundado na fé. O importante para Glauber era
abordar essa cultura por dentro, a partir do discurso concreto dos personagens.
Glauber descreve Maria Mamede: “suja, cega
e sua filha semilouca, magra, esfarrapada, olhos fundos” (ROCHA: dez/1963:
14). A imagem da violência da fome, de um Brasil esquecido, ausente, que
se apresenta, a partir do testemunho desses personagens, como um discurso
reconstrutor das ruínas de um passado histórico e heróico.
Glauber procura na memória dos nativos do sertão, o substrato de
sua obra, o imaginário que buscava alcançar.
“De nobrezas destruídas
Vaza-Barris e outros sangues
Destas tristes riquezas
Diluídas pelos mangues
De um campo de memórias
Cocorobó e tantos nomes
De sertões ignorados pelas margens
destes homens...”
(ROCHA:dez/1963:14).
A escrita poética alegórica
busca trazer de volta os mitos e
ritos populares. Apelo poético por uma contra-história que
fusionada à imaginação desvele uma cultura nativa
irreverente ao processo colonial (BENJAMIN).
No relato de Maria Mamede (VENTURA: 2000, O
Bom Jesus, beato) queria fazer o leite correr nos rios e partir o cuscuz nas
paredes dos montes. Vestia um camisolão azulado, tinha uma barba grande,
vivia cercado de jagunços e não olhava para as mulheres.
Não pregava a guerra e nem a revolta. Segundo mestre Ciríaco, as
tropas do Bom Jesus eram lideradas pelo comandante João Abade e um negro
chamado Pagéu, que era assassino. No entanto, Ciríaco afirma para
Glauber que não foram os jagunços que mataram o coronel Moreira
César e sim os soldados do próprio governo. O informante Pedro
das Ovelhas, primo do cego Zé,
apesar de não ter seguido o beato, partilha dos mesmos valores do seu povo:
“ – A fé pode tudo e com ela agente se
alevanta do chão.
... O comunismo é pior que as
tropas do governo que deu o fogo em Canudos. Mas eu num sei mesmo se é
melhor morrer da outra morte do que
essa aqui de todo dia em pé, diferente do tempo de D. Pedro II,
imperador do Brasil!!! que o comunismo tirou do trono para botar a
república pior que trouxe a guerra. Mas eu pergunto se não
é melhor se o conselheiro voltar, ir atrás dele e morrer na
felicidade da fé? E eu também, bastava Lampião chegar vivo aqui pra eu ir atrás brigar com
os macaco...” (ROCHA: Mns:
Arquivo TG: nov/1959).
O beato Bom Jesus é
descrito como uma figura lendária que materializa a possibilidade da
salvação e libertação dos homens da
submissão às leis terrenas. Ele não reivindica nem a
revolução nem a guerra, nenhuma moral senão uma vida fundada na fé. Só
a fé conciliaria os homens com a natureza revoltada e invertida pelo
mal, umedecendo e fertilizando a terra santa profanada pelos homens.
A vida comunitária, regida pela
fé, renuncia à moral do comunismo e da república para conciliar os homens com sua
natureza bárbara, arcaica e mística. Bom Jesus e Lampião seriam, para Glauber, os
heróis que materializam a
utopia, de fundo arcaico , da libertação. A fé é um
substrato moral que não se alia à política, mas a um
universo de representações naturais e espontâneas do
próprio povo. “É quando Deus se mistura com o Diabo”,
pois a tradição terrena é o inferno invisível, a
terra, no imaginário de seus nativos, é o próprio reinado
do demônio, o que já anuncia o fracasso da utopia, que subsume o
profano ao sagrado.
Os cangaceiros Lampião
e Corisco também partilhavam dos mesmos valores que o beato, para quem,
somente o poder de Deus, era digno da submissão dos homens. O misticismo
cristão se volta contra a razão e contra a moral. Seja no verbo
fanático de um beato, ou na revolta anárquica e incontida de um
cangaceiro. Frutos da terra, Lampião, Antonio das Mortes e Bom Jesus
espelham para Glauber, o imaginário nativo do sertão. Há
uma tonalidade política no gesto radical do cangaceiro que se expressa
num ideal de justiça. Justiça que não se realiza “com
rosário, mas no rifle e no punhal”. No entanto, a revolta
não se separa do messianismo, Corisco “levanta o cabo do punhal em
frente ao rosto, como uma cruz, e diz:
“Eu, José com a espada de
Abraão serei coberto, eu, José com o leite da Virgem Maria serei
borrificado, eu, José, com o sangue de Cristo serei batizado, eu,
José na Arca de Noé serei guardado, eu, José, com as
chaves de São Pedro serei fechado onde não me possam ver e ferir,
nem matar, nem o sangue do meu corpo tirar.”
(SENNA, org.:1982: 285)
A cruz e o
punhal evocam na narrativa de Glauber, o retrato místico e profano do
cangaceiro.
Antônio das Mortes, o jagunço, é um
personagem inspirado nas memórias do Major José Rufino, matador
de cangaceiro muito conhecido em Vitória da Conquista com quem Glauber
assume ter tido contato pessoal. Para Rufino, a fé em Deus não
justifica a submissão dos homens. Só a morte corrige o fanatismo
cego e a rebelião anárquica,
tanto o beato quanto o cangaceiro, merecem morrer. Rufino mata “sem
piedade e por dinheiro”. Como Antônio das Mortes, “Fui
condenado nesse destino e tenho que cumprir: sem pena e pensamento. (op. cit.:1982: 287)
Rufino matou Corisco e teria dito a Glauber que o fez contra a
própria vontade. No texto de
Glauber, Antonio e Corisco são personagens marginais que recusam a moral
civilizatória, mas possuem um sentido de justiça que se expressa
na violência e na vingança. Antônio é um andarilho do
sertão, herói desprovido de compaixão e razão.
Responde ao seu destino sem qualquer juízo crítico ou moral,
conhece a fatalidade. Diferente de Corisco, Antônio não tem
passado ou qualquer referência histórico-cultural, que aponte para
um destino.
José Rufino, nos idos de 60, vivia
numa fazenda em Jeremoabo. Rufino foi também um jagunço conhecido
na região de Vitória da Conquista, onde Glauber nasceu. É
Rufino quem descreve Corisco para Glauber,
“ — Como era bonito! As
moça tudo endoidava e tem quem diz, porque sabe que Maria Bonita era
apaixonada por ele. Olho azul, cabelo louro perfumado e cheio de cruz,
São Jorge, botão no rifle, dente branco, dente de macho.”1
(ROCHA:1965)
Depois de atirar em Corisco,
que diante da morte exalta a força dos poderes de Deus, Rufino corta-lhe o braço e
a cabeça e os envia para a capital numa lata de querosene. Rufino
admirava a valentia de Corisco, que o queria em seu bando. Rufino, porém
se colocou a missão de exterminar o cangaço no sertão.
Rufino é uma fonte de
inspiração para Glauber, que buscou em Antônio das Mortes,
uma reconstrução fílmica de seu discurso:
“Rufino me contou de uma moça
e um cangaceiro que não foi pego até hoje. A partir dali foi que
eu comecei. Depois o Major Rufino me contou a vida toda de Corisco e todo o
problema de Corisco dentro do bando. Corisco era um cangaceiro marginal ,
místico, violento, um cangaceiro muito importante dentro do bando, que
impunha respeito a Lampião, tudo isso.”. (ROCHA:1965)
Deus
e o Diabo é,
antes de tudo, uma narrativa que se inspira na própria vivência de
seu autor,
“Os jagunços na rua em torno
do meu avô
com espada de CPOR e automática
encravada
igual à biografia de artistas entre
homens normais
além da história o fio
desaparece
está lá o impulso gerador.” (ROCHA:1965)
Antônio das Mortes, lembra os jagunços de
Vitória da Conquista que viviam entre sua família: “Em garoto vi muito jagunço
daquele tipo, que usava aquela capa que serve inclusive para proteger o fuzil
de repetição que fica debaixo.” (ROCHA:1965)
Glauber comenta ter conhecido
o cego Zé, “voz de
angústia, furando as tardes de Monte Santo, invocava amores perdidos e crimes terríveis.” (ROCHA:1965)
O cego cantador é um personagem comum no
sertão pode ser visto cantando nas ruas e nas feiras. Em suas
canções, o cego revela as estórias do cangaço, do
cotidiano e a visão de mundo do sertanejo. Glauber trás em sua
narrativa uma analogia com a mitologia grega, na qual o cego, na
condição de adivinho e vidente, prescindia da visão
ocular. O cego não vê, mas entende e sente, como nativo, as
aspirações coletivas de seu povo. O cego encaminha a narrativa
porque vê o futuro. Nas confrarias de aedos da idade arcaica, a poesia e
adivinhação estão juntas, sendo que a primeira volta-se
para o passado. O poeta vê o que não é mais. O cego
vê o futuro. Glauber buscava na poesia uma memória que não estava
nos livros e na história escrita: “Na
voz dos cantadores está o não e o sim – e foi
através dos cantadores que achei as veredas de Deus e o Diabo nas terras
de Cocorobó e Canudos.” (ROCHA: 1965)
A intenção de Glauber é capturar esse universo cultural em seu
estado bruto em sua ambivalência no tempo poético e mítico.
A história não se tece nem pelo arbítrio da razão
colonizadora e nem pelas forças do espírito a
história em Glauber se tece enquanto tragédia em que o
destino dos homens jamais lhes pertence, pois o tempo na narrativa de Glauber
é fugaz e descontínuo, ele atua entre o que não existe
mais e o que não é ainda.
O Brasil construído
por Glauber vive dessa simultaneidade de tempos, entre o processo colonizador e
a tradição mítica. A narrativa de Glauber quer exaltar
essa simultaneidade, conscientização e enigma, hábito e
vida. Narrativa como mito e poema, na qual as aspirações e dramas
de uma nação se expressam metaforicamente em idéias
metafísicas tomadas de empréstimo da tradição
cristã, como destino, salvação, redenção,
anunciação, sintomas de um tempo ausente na modernidade. O
misticismo não é visto como sintoma de passividade e
alienação, mas entendido como um elemento libertário da
cultura, porque não afeito a cultura do colonizador.
Glauber busca uma forma que
despreza uma moldura ideológica engajada.Tenta reconstruir a pureza rude
de um imaginário mítico associada a sua própria
experiência de homem e de artista. A narrativa se inscreve no registro
criativo da imaginação e da memória. O mito se mistura ao
discurso oral e rememorativo dos personagens. Discurso onde o autor recupera a
inocência da canção popular, das fábulas e do mito
que recria e inscreve como um testemunho da cultura nativa. É como se,
atravessando a memória e o discurso desses personagens, o autor buscasse
extrair deles “um ato de fala puro, fabulação criadora que
é como o avesso dos mitos dominantes, das palavras vigentes e dos que as
proferem , ato capaz de criar o mito em vez de tirar proveito ou
exploração deles” (DELEUZE:
1990: 264) Ou seja,ato de fabulação pela qual os personagens
reinventam-se como membros de uma nação. Glauber intervém
e modifica o universo cultural do sertão. O autor não se
atém à reprodução imediata e fiel do modo de vida
desses personagens, mas à maneira pela qual ele é figurado pelos
seus representantes e reinventado na sua inspiração. Seria na fabulação que Glauber
identifica sua forma de expressão.
O impulso incontido de
reinvenção das coisas aparece nas matérias informativas de
jornal, em que acontecimentos cotidianos expressam o retrato social e cultural
do Brasil. A notícia de uma inundação na estrada
Rio-Bahia, é menos importante do que o universo humano cultural dos
transeuntes. Glauber descreve, no artigo intitulado: “A miséria
é chocante e os conflitos tendem à crescer”:
“A
galeria humana presa na Rio-Bahia vai de prostitutas, jagunços,
policiais, viajantes, ladrões, boiadeiros, bandidos, gente pobre de pau
de arara, subindo pro sul, carregada de ilusões, e outros voltando
mais magros e tristes, sem um
vintém e uma ponta de esperança . Os jagunços
pernambucanos são temidos, raro o que não traz peixeira na cinta.
Os jagunços mineiros são mais calmos calados, com pistolas 45
atadas nas ancas”. Jornal da
Bahia, 31/1/1963.
O retrato social do Brasil se
tece na narrativa de Glauber, do sertão para o mar. Personagens
periféricos em transe na estrada
Rio-Bahia, Mar Atlântico
–
Sertão –,
são eles os protagonistas da
tragédia cultural brasileira. Personagens que aguardam, em vão, a
transfiguração civilizadora, representada pela estrada, signo do
progresso. A paisagem verde do sertão mineiro anuncia a presença
imperativa da miséria e flagra a desencanto daqueles personagens ante a perspectiva
de progresso e cidadania representada pela estrada. “Magros, tristes e
sem esperança” (Jornal
da Bahia,
31/1/63). Jagunços,
ladrões e bandidos iluminam a paisagem invertida da nação
brasileira, sem lei e sem moral, em que sobrevivem a margem da história.
Os jagunços dramatizam o moderno e o arcaico, pistola e peixeira. A
estrada interrompida, vozes revoltadas “protestos sem eco” –, afirma Glauber, ao fim da
matéria.
Para Glauber, o Brasil do sertão
se encontra apartado do Brasil do
litoral, racional, letrado e moderno:
“Mais além, nas cidades
espalhadas no Centro-Sul,
cemitérios destinados aos
imigrantes do sol”.
(ROCHA: Jornal da Bahia, 31/1/1963)
A cidade é o destino
dos mortos. Espaço virtual de um futuro possível para aqueles
que, na vivência da fome e do desespero, congelaram a esperança. O
espaço da urbe emudece a voz e o gesto do sertanejo, transfigurado em
pobre citadino. A cidade acena como um cemitério para “os
imigrantes do sol”. Na
narrativa de Glauber transparece a desilusão com o progresso
burguês e oscila entre o ceticismo e a utopia. A sociabilidade urbana
não opera num registro educativo e civilizador como também
não integra o modo de vida sertanejo. A terra seca, o agreste, o
sertão –
é o drama em que a natureza desafia o tempo histórico da
civilização, ainda que por ele corrompida. Ainda assim, nesse
círculo trágico, na visão de Glauber, o sertão
guarda um universo mítico passível de preencher um discurso
crítico de combate ao colonizador.
A visão de mundo de Glauber desenha uma tensão permanente
entre o moderno e o arcaico, o materialista e o messiânico, o divino e o
satânico. Confronto trágico no qual a simultaneidade de tempos
dissonantes tece uma história que nasce como ruína. A
aspiração utópica de restaurar fragmentos de uma cultura
autêntica mutilados pelo processo dominador se traduz na esperança
trágica da libertação. A natureza agreste e violenta dos
sertões expulsa seus nativos tornando-os seres errantes. Nenhum
iluminismo civilizatório se fixa nos sertões, cuja positividade
reside na tragédia, onde as frágeis criações
humanas sucumbem diante da vingança da natureza:
“Não vale mais a sentença clássica de Euclides: o
sertanejo não é, antes de tudo, um forte. É, antes de
tudo, um servo da mais primitiva condição, é um fraco e um
passivo: sua resistência já é na própria morte,
não é na vida: a impotência mental e física
está presente em seus atos cotidianos e ele só ameaça se
libertar da preguiça se estimulado pelas alienações do
misticismo.” (ROCHA: mns.nov/6)
A nação
não se constitui como signo de resistência, “a
impotência mental e física do nativo” (ROCHA: mns.nov/1963) não modela nenhum destino. O
sertão não se configura para Glauber como um paraíso
perdido deixado à margem da história colonial. Nenhum sertanejo
parece capaz de escapar do destino que a sua natureza lhe impôs.
Tragédia que se expressa numa cultura messiânica para uma causa
perdida.
O homem do sertão
não desvendará a magia do Atlântico. Cativo que é de
suas raízes primitivas, escravo em si mesmo, seu comportamento
não espelha a grandeza heróica dos grandes cavaleiros medievais.
Oprimido, não pela história, mas pela força de uma
natureza passiva, que o impede de ser construtor de seu próprio destino.
Inerte ao tempo, indiferente à vida, se deixa sucumbir diante da
própria morte. Vive “desta
morte inacabada no agreste dos espinhos”. (ROCHA: mns.nov/1963)
Ausente em sua vontade,
alienado de si, o sertanejo deixa-se aprisionar pelo misticismo, “com a força transferida para
as mãos do Bom Jesus” (ROCHA: mns.nov/1963) aguarda o chamado
messiânico que desafie o destino figurado pela fome. É compreensível
que a partir de 1965 a fome passe a
incarnar pra Glauber o sentimento que universaliza a condição dos
povos subdesenvolvidos do Terceiro Mundo. A proposta estética do
manifesto A estética da fome, de
1965, vai se afastar da problemática nacional para afirmar um
procedimento universal para as culturas do Terceiro Mundo.
Glauber parece duvidar que o
homem rude do sertão possa alcançar, em algum nível, a
consciência crítica de sua miséria. Fraco e passivo,
habitante de um mundo de fome, sede e privação, o sertanejo, em
sua primitiva condição, está distante do processo civilizador.
A imagem signo da nação não prefigura para Glauber, um destino
revolucionário para o país. A idéia era buscar no nacional
uma forma de dignificar uma identidade cultural como fundamento de um processo
político. Contudo, Glauber mostra que a identidade
povo-nação, reivindicada no projeto nacional popular, não
fertiliza a revolução. Esta visão de mundo rompe com a
perspectiva da esquerda (CPC), que percebia no povo brasileiro a
vocação para a revolução. Para o CPC – Centro Popular de Cultura –, tratava-se de politizar a cultura
popular atribuindo-lhe uma ação revolucionária.
Mostramos que o popular na
visão de Glauber não é pura alienação, mas
guardião dos valores da tradição, valores que resistem
à colonização, mas não agenciam uma
ação política. Pois, para Glauber, a argumentação
engajada e didática não pressupõe a narrativa que valoriza
antes, o modo de vida do sertanejo. Uma arte pedagógica anularia as
dissonâncias que são a própria matéria prima da
vocação nativa. A arte, nesse contexto, deve propor uma
vivência e não um entendimento racional acerca da realidade social
do país. Ao contrário, a estética para politizar o real
deve se fundamentar na expressão do artista. Ao nosso ver, o autor
apresenta uma terceira via de lidar com o popular: nem o conservadorismo
nostálgico e paternalista presente no regionalismo, nem a
instrumentalização política proposta pelo CPC, mas a sua
inserção num discurso propriamente artístico, tal como
Villa-Lobos havia criado na música.
No domínio de uma linguagem
espontânea e metafórica, Glauber vai tecendo sua
crítica a
formação colonial brasileira.
“De que
adiantam esses símbolos da violência e da morte, para que servem
as heranças apodrecidas da Idade Média? É uma vergonha
cercada de arame farpado. Nem é um campo de concentração,
não chega a ser um tutano, um caule — e os que se comem são
de bois magros ou de insossas macambiras”. (ROCHA: mns.nov/1963)
Ao recriar o modo de vida no
sertão do Brasil, Glauber deixa vazar sua indignidade e revolta diante
da paisagem cultural que o rodeia. Em sua visão, o Brasil do
sertão não potencializa um processo revolucionário e
não deixa heranças para o Brasil civilizado. O passado se rompeu
e não deixou heranças para o futuro. O destino é um
enigma, restos apodrecidos e desintegrados no espaço e no tempo, portanto
resta ao autor o luto, a revolta e o apelo a imaginação
transformadora. Mas o pensamento de Glauber oscila, porque busca criar uma
herança como identidade e referência para a nação
brasileira. Monte Santo, Trapagó, Quinquiribal, Acaru, Cocorobó e
Quebroguenem, campos preenchidos de ruínas que o nosso autor, faz
regressar na narrativa de seu filme. Pois a despeito da revolta, o autor sabe
que o passado ainda guarda virtualidades no fio de uma outra história
inacabada e oculta pela luminosidade do presente. Glauber viaja até o
sertão, imprime na vivência a angústia do camponês
diante do leito seco dos rios. O autor quer reinventar um universo,
“... onde, antigamente, imperavam as leis dos feudos
medievais, com seus cavaleiros subnutridos nas armaduras de couro. O
jagunço é um pobre valete que nada leva de si a não
ser seu destino submisso ao destino
do senhor: assim foram colonizadas às margens do São Francisco,
de onde saiu a pior tradição das nobrezas, desde as Minas
Gerais de Guimarães Rosa
até os sóis de Palmeira dos Índios na cruel narrativa de
Graciliano Ramos.” (ROCHA: mns.nov/1963)
A narrativa de Glauber quer
exaltar e dignificar o homem rude e submisso, habitante das choupanas de
sopapo, palafitas que desenham a pré-história de uma
nação. A denúncia de um comportamento inerte e passivo,
não esconde a ambição de revelar um modo de vida.
Herdeiros de uma tradição medieval, esses cavaleiros subnutridos
se entregam ao cangaço, tornam-se pistoleiros ou camponeses sem terra.
Diante da ausência de uma relação senhorial, que se exprimia
como devoção e honra, da ausência do Estado e das leis, o
sertanejo permanece arcaico e entregue à própria sorte. A
despeito de não está presente na construção da
nação, o sertanejo representa uma cultura nativa. As “vestes
de couro, panelas de barro, chicotes, fifós de lata, carro de boi,
bruacas de couro de cabra, mandioca, umbu, mandacaru, rapadura, milho e
cajarana” espelham um modo de vida que Glauber presenciou desde a
infância. A cultura
não resulta de um processo histórico-cumulativo, ela tem uma
textura própria que dispensa julgamentos de valor comparativos. Nessa
visão, os homens comportam uma unidade orgânica e a cultura e
expressam uma vocação nativa. Essa centelha de harmonia se
expressa no transe de uma história incompleta e deve se presentificar na
poética cinematográfica que Glauber Rocha traz ao contexto
moderno. O sertanejo “morto e vivo”, “passivo e
místico” pode ser preenchido de uma vida histórica
imaginária reconstruída voluntariamente pelo autor através
da obra.
Nativo do sertão, entre as
fronteiras de Minas e Bahia, Glauber fez de sua origem, matéria bruta de sua arte.
Imbuído da utopia de unir, simbolicamente, o mar e o sertão,
Glauber internacionalizou imagens e modos de vida silenciados das narrativas da
nacionalidade sejam aquelas defendidas pelo Estado e suas
instituições ou pelos intelectuais.
Deus e o Diabo, filme, imagem, música e
Nação
“Acho que o cinema brasileiro tem,
nas origens de sua linguagem, um grande compromisso com a música: nosso
triste povo canta alegre, uma terrível alegria de tristeza. O samba de
morro e a bossa-nova, o romanceiro do nordeste e o samba de roda na Bahia,
cantiga de pescador e Villa-Lobos – tudo isso vive dessa tristeza larga,
deste balanço e avanço que vem do coração antes da
razão.” (ROCHA:1965)
A música para Glauber
recolhe do real uma fatia da cultura inalcançável pelo discurso,
nesse sentido ela é também filmica. Os cantos populares e o samba são
para ele fontes arcaicas que junto a erudição e ritmo de Villa-Lobos
e da Bossa nova revelam a alma da cultura brasileira. A linguagem
fílmica deve ser para o Brasil um testemunho autêntico como o
samba. A cultura nativa se revela em forma autêntica na música,
seja no canto triste de um cego feirante, no compasso moderno da bossa nova ou
no tom erudito de Villa-Lobos. A
música, enquanto imaginação, revela uma “ontologia
direta” na qual a narrativa poética, acompanhada da música,
se faz revelação de um sentido arcaico. Nesse registro, ela se
encaixa na ambição fílmica de Glauber, que renuncia um
vínculo com a história linear a fim de reinventar, em sua
poética descontínua, o aspecto nativo da cultura. Em sua
poética fílmica, o autor se apresenta como intérprete da
mensagem órfica e espontânea dos nativos.
As cantorias do cego e do romanceiro do nordeste
foram escritas por Glauber e pelo compositor e cantor Sérgio Ricardo.
Às cantigas populares ele agregaria em seu roteiro, a música de
Villa-Lobos, Brahms, Bach e Beethoven. A pureza rude do popular se harmoniza,
em Glauber, ao cultivo de fundo clássico, da forma depurada da
música erudita. Essa
síntese já anuncia na autoria a busca de uma
combinação entre o popular e o erudito, não só por
utilizar Villa-Lobos, como também Sérgio Ricardo que vem de uma
formação erudita e foi um dos precursores da bossa nova. Tanto
Villa-Lobos quanto Sérgio Ricardo são músicos ligados ao
cotidiano do Rio de Janeiro. Sérgio cantava nas noites de Copacabana
onde a distância do sertão se faz tanto pela cultura como pela geografia.
A música popular, o choro, as serestas, o samba e a boemia marca a vida
urbana carioca. Villa-Lobos incorporou à sua forma musical erudita a prática
musical das massas urbanas e do povo sertanejo respectivamente: o violão
que foi um instrumento rejeitado pela elite e a viola caipira do nordeste. A
proposta de Villa-Lobos é romper com a dicotomia campo e cidade,
civilização e barbárie criar uma imagem que integre o
sertão à nacionalidade.
“Villa-Lobos talvez fosse quem
melhor colocou todo o Brasil em em termos de arte. Villa-Lobos filtrou toda uma
temática popular, verdadeira, humana, impregnada de nossas
tradições, em forma musical de grande valor.” (ROCHA:1965)
Villa-Lobos partilhava de um
sentimento de nacionalidade que Glauber buscava expressar. A
exaltação romântica da paisagem nativa, que quer pensar o
nacional como fluir orgânico da cultura, um pensamento que se quer
afastado de um reducionismo político, datado e ideológico.
Glauber como Villa-Lobos buscava uma estética da nacionalidade que
destacada de uma moldura
histórica e política e de
discursos engajados se aproximasse
da natureza do homem brasileiro.
A influência de Lobos foi determinante para a
decisão de Glauber de orquestrar o filme musicalmente: “Não botar mais a câmera nem a
montagem para amarrar, mas orquestrar tudo.” (ROCHA:1965)
Glauber encontra em Villa-Lobos a estrutura rítmica
e a proposta estética que
almejava em seu filme.
Ambicionava realizar em forma fílmica o que o mestre havia feito em
música. Em Deus e o Diabo,
Glauber alcança a síntese entre a dimensão formal e
estilística e a absorção dos elementos peculiares da vida
sertaneja.
Deus e o Diabo na Terra do Sol é uma obra que condensa os
estudos que Glauber vinha desenvolvendo no campo da literatura, pesquisas sobre
a cultura popular e entrevistas. Afinado à vertente regionalista, o
autor valorizou como suporte de uma identidade nacional a figura do sertanejo e
seu modo de vida. O filme alcança um tom épico e teatral a partir
dos cantos poético-populares de um narrador cego e da narrativa sinfônica
erudita e popular de Villa-Lobos.
Essa proposta de um aprofundamento e
incorporação de representações populares no
discurso estético está presente nos primeiros textos
literários de Glauber, nos quais o autor mostra que a cultura original
da nação se faz presente na narrativa poética do cordel.
No entanto, para Glauber esse universo lendário não traduz um
projeto nacional. A imersão lendária deve percorrer a sua
própria odisséia e enfrentar o mar atlântico, ou seja, os
princípios culturais do colonizador.
O camponês Manuel,
segundo o próprio autor “busca o mar num sentido alienado,
não permanece lutando”, corre em direção ao mar: “... quem chega ao mar não
é a personagem: quem chega ao mar, sou eu, com a câmera, mostrando
o mar como uma abertura de tudo que aquilo pode significar.” (ROCHA:1965)
A corrida do sertanejo pode
simbolizar a sua própria diluição no universo do
colonizador. Se no discurso de Glauber é a câmera que chega ao
mar, na narrativa fílmica ele aponta, através da música de
Sérgio Ricardo e Villa-Lobos, a simultaneidade de caminhos para o
personagem e para o Brasil.
Na obra fílmica, o
cangaceiro Corisco enfrenta Antonio das Mortes num duelo, onde a troca de tiros
e a presença dos policiais
torna a morte do cangaceiro inevitável. Antonio, ao balear Corisco
exige que ele se entregue, seu grito se mistura ao ritmo das imagens e ao som
dos tiros, da música, da voz e do violão de Sérgio
Ricardo. Linguagem estética que Glauber trazia do experimentalismo
musical da escola de música de Salvador, do movimento concretista e que
será atualizado pelo movimento tropicalista em 1967. No seu primeiro
roteiro “Senhor dos Navegantes” (1957) Glauber já anunciava
esse procedimento quando sugeria a mistura entre a música sacra, os
batuques de candomblé e o samba. Mas faltava o tom erudito que ele
encontraria na música de Villa-Lobos, que junto a imagem do mar a voz e
canto de Corisco, finaliza o filme:
“Se
entreeee ga Corisco!
Eu
não me entrego não,
eu
não sou passarinho
prá viver lá na
prisão!
Se
entreee ga Corisco/
Eu
não me entrego não,
não me entrego ao tenente ,
não me entrego ao capitão,
eu me entrego só na morte de
parabelo na mão!”
Corisco quase morto grita: “–
MAIS FORTES
SÃO OS PODERES DO POVO!”
Os camponeses Manuel e Rosa
correm pelo sertão em direção ao mar imaginário que
se completa com a música e a voz dilacerada de Sérgio Ricardo:
“O
sertão vai virar mar
e
o mar vai virar sertão!
Tá
contada a minha estória verdade, imaginação.
Espero
que o sinhô/ tenha tirado uma lição
que
assim mal dividido, esse mundo anda errado,
que a terra é do Homem, não
é de Deus nem do Diabo.”
A terra é do homem e o
mundo não pode se dividir entre o litoral e o interior, o mar e o
sertão, o moderno e o
arcaico, a conscientização e o enigma. A imagem do mar se
superpõe ao sertão ao som da música orquestrada choro nº
10 de Villa-Lobos. No choro nº 10 de Villa- Lobos se misturam um conjunto
de significantes musicais onde há a sonoridade da natureza dos
trópicos, florestas, sertões, cantos de pássaros, os
cantos religiosos, batuques, cantigas populares e as musicalidade
indígena, africana, rural e urbana evocam o mito nacional em coro e
orquestra.
Através de Villa-Lobos
Glauber trás para a sua obra fílmica, a simultaneidade de
elementos culturais e forças que não encontram uma síntese
compreensível para o discurso civilizado, mas antes a vitalidade do
diverso, dos fragmentos errantes que se abrem para a evocação
mítica. Forças que explodem em brutalidade, ira e lamento
incontido da diversidade que contesta o projeto nacional civilizador seja ele
revolucionário ou conservador.
NOTA
Agradeço muito ao professor Arnaldo Contier por ter
me chamado atenção para a
releitura glauberiana de Villa-Lobos e sua centralidade na
discussão da estética de Deus
e o Diabo. ver também Wisnik,
José Miguel. Estado arte e
política em Villa-Lobos, Vargas e Glauber. Folhetim nº 283, São Paulo, 20/6/1982.
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