Resumo:
Este ensaio discute a importancia cultural e ideológica da leitura e sua formação na mentalidade do século XIX, a partir de um estudo de O primo Basílio, de Eça de Queirós, sua recepção no Brasil, a partir de um artigo acre de Machado de Assis a seu respeito, e diversos elementos de intertextualidade que compõem o imaginário cultural e social da época: a ópera, o folhetim, o teatro. O tema da mulher insere-se neste quadro tanto do ponto de vista de personagem (a Luísa, de O primo Basílio), quanto de leitora, examinando-se a questão da censura tradicionalmente ligada à leitura quando se trata de leitora feminina.
Texto:
Documento sem título
Eça de Queirós e suas Leitoras Malcomportadas1
Marisa Lajolo
IEL UNICAMP
Versão anterior deste texto foi apresentada
no III Encontro Internacional Queirosiano realizado entre 19 e 21 de
setembro de 1995 em São Paulo e foi aceita para publicação
em seus Anais. |
| Pinheiro (a Lulu) - Cuida das tuas novelas!
Vai encher a cabeça de romantismo, é moda; colhe as idéias
absurdas que encontrares nos livros, e depois faz da casa de teu marido
a cena do que houveres aprendido com as leituras: é também
moda (Sai arrebatadamente)
- Sabe o que ela tem, senhora Helena
?
É muita dose de novelas naquela cachimônia.
Eu vejo-a pela manhã até à noite de livro na mão.
Põe-se a ler romances e mais romances ...
Aí têm o resultado: arrasada ! (p.251)
- Tu, se fosses casado, davas
O primo Basílio a ler a tua mulher ?
- Lá isso não. Mas não tinha a mais
pequena dúvida em o dar à tua. ( p.58)3 |
0 primo Basílio, 4
escrito entre 1876 e 1877, de setembro a setembro, foi publicado em 1878. Nos
dias 16 e 30 de abril deste mesmo ano, Machado de Assis publica em O Cruzeiro
artigo de crítica azeda ao romance português, encerrando-o com
considerações severas sobre os deletérios efeitos de leitura
patrocinados pela história de Luísa : "( ... ) essa pintura,
esse aroma de alcova, essa descrição minuciosa, quase técnica,
das relações adúlteras, eis o mal. A castidade inadvertida
que ler o livro chegará à última página, sem fechá-lo,
e tornará atrás para reler outras" (p. 913).5
Se as leituras que O primo Basílio enseja parecem
ter peso decisivo na opinião crítica de Machado, algumas práticas
que o livro protagoniza - tal como as representa a ficção brasileira
- parecem dar razão a este Machado censor da leitura virtuosa; com efeito,
no mais popular manual de ensino de literatura no Brasil até os anos
30, este romance de Eça é apresentado como obra onde o naturalismo
não recuou diante da torpeza.6
Constituem, assim, as práticas de leitura, horizonte
no qual parecem irmanar-se Machado de Assis e mestres-escolas zelosos da consciência
alheia. Coincidência curiosa, cujo deslinde talvez peça discussão
dos diferentes níveis da vida social envolvidos nas práticas de
leitura.
Práticas de leitura englobam uma dimensão econômica:
ler romances - mesmo na precariedade das práticas culturais letradas
do Brasil da segunda metade do século passado - significa ter acesso
a livros, isto é, a objetos produzidos, postos em circulação
e consumidos num contexto (acanhadamente) capitalista. Mas práticas de
leitura englobam também uma dimensão simbólica, dado que
a leitura - inclusive e talvez sobretudo a literária - influencia atitudes,
comportamentos, valores, e crenças de quem lê.
A hipótese aqui discutida é que tanto economia,
quanto imaginário podem estar nas raízes da implicância
de Machado contra o romance de Eça. Muito provavelmente estão,
embora delas possa não desconfiar o bruxo do Cosme Velho.
Senão, vejamos: ao lançar um best-seller
tematizando o adultério, Eça não podia estar ameaçando
Machado que, por volta de 1878, certamente já ruminava suas Memórias
Póstumas de Brás Cubas, lançadas em folhetim do Jornal
das Famílias em 1880 e publicadas em volume em 1881?
Podia, sim.
No plano da conquista do público, parece ter sido costume
corrente no século XIX brasileiro abrir espaço para a própria
obra a cotoveladas menos ou mais discretas nos rivais presuntivos. José
de Alencar inaugura o expediente, ao anteceder seu O Guarani (1857) das
Cartas sobre a Confederação dos Tamoios onde, a propósito
do poema de Gonçalves de Magalhães, reclama da ausência
e proclama a necessidade do tipo de obra que publica no ano seguinte.
A estratégia parece repetir-se mais tarde, e, por ironia,
contra o próprio Alencar: quem em 1873 precisa de espaço é
um Machado de Assis que um ano depois de Ressurreição pode
estar fazendo indiretamente o marketing de sua obra romanesca de feição
urbana, ao desqualificar na Notícia da atual literatura brasileira
publicada na revista Novo Mundo a literatura regional - então
campeã de público e bem cotada na crítica. Para aquele
Machado, índias de lábios de mel e casais mestiços que
se sumiam no horizonte valiam menos do que a cotação que tinham
no mercado das letras:
(...) manifesta-se hoje uma opinião que tenho
por errônea: é a que só reconhece espírito nacional
nas obras que tratam de assunto local, doutrina que, a ser exata, limitaria
muito os cabedais de nossa literatura. (p. 803)
(...) Aqui o romance, como tive ocasião de dizer
busca sempre a cor local. A substância, não menos que os acessórios,
reproduzem, geralmente, a vida brasileira em seus diferentes aspectos e
situações. (p. 804)
Do romance puramente de análise, raríssimo
exemplar temos, ou porque a nossa índole não nos chame para
aí, ou porque seja esta casta de obras ainda incompatível
com a nossa adolescência literária. (...) Pelo que respeita
à análise de paixões e caracteres são muito
menos comuns os exemplos que podem satisfazer à crítica; alguns
há, porém, de merecimento incontestável. Esta é,
na verdade, uma das partes mais difíceis do romance, e ao mesmo tempo
das mais superiores. Naturalmente exige da parte do escritor dotes não
vulgares de observação, que, ainda em literaturas mais adiantadas,
não andam a rodo nem são a partilha do maior número
(p. 805).
Assim, num horizonte de cifrões e de poderes no mundo
das letras, certas críticas não parecem de todo indiferentes a
projetos literários de interesse do próprio crítico. Torna-se,
portanto, sugestiva a hipótese de que os piparotes mal humorados de Machado
em Eça possam estar, na verdade, pavimentando os adultérios machadianos,
discretos e às vezes até evanescentes, inaugurados com a Virgília
de Brás Cubas.
Narrador oblíquo e crítico dissimulado?
Mas a diatribe machadiana anti-Basílio pode ter ainda
outras raízes, e necessitar de outra clave para refinar a questão.
A crítica de Machado a Eça também se inscreve na longa
tradição que policia os efeitos formadores/deformadores da leitura
literária. A leitura feminina, sobretudo a partir de Mme. Bovary
(1857) sofre um processo que se poderia chamar de criminalização:
temem todos que o leitor de saias encontre, na leitura romanesca, contra-exemplos
da conduta social pretendida para mulheres.
E nada tão anti-social para olhos oitocentistas quanto,
por exemplo, a conduta de Luísa, protagonista de O primo Basílio
como, aliás, não escapa a Machado:
Luísa é um caráter negativo, e
no meio da ação ideada pelo autor, é antes um títere
do que uma pessoa moral.
Repito, é um títere; não quero
dizer que não tenha nervos e músculos; não tem mesmo
outra coisa; não lhe peçam paixões nem remorsos; menos
ainda consciência (...).
Empurrar Eça para o banco dos réus pela leitura
que patrocina não deixa de ter um traço de ironia. Feitiço
contra o feiticeiro, já que a condenação da leitura feminina
é constante e reiterada na obra queirosiana. Ainda no romance de estréia,
O crime do Pe. Amaro (1875) várias situações de
leitura ajudam a compor o ambiente de dissolução moral da carolagem
e clerezia de uma aldeia portuguesa:
Quando descia para o quarto, à noite, [Amaro]
ia sempre exaltado. Punha-se então a ler os Cânticos a Jesus,
tradução do francês publicada pela sociedade das Escravas
de Jesus. É uma obrazinha beata, escrita com um lirismo equívoco,
quase torpe - que dá à oração a linguagem da
luxúria; Jesus é invocado, reclamado com as sofreguidões
balbuciantes de uma concuspiscência alucinada. "Oh ! vem, amado
do meu coração, corpo adorável, minha alma impaciente
quer-te! Amo-te com paixão e desespero! Abrasa-me ! Queima-me ! Vem
! esmaga-me ! Possui-me!" E um amor divino, ora grotesco pela intenção,
ora obsceno pela materialidade, geme, ruge, declama assim em cem páginas
inflamadas, onde as palavras gozo, delícia, delírio, êxtase,
voltam a cada momento, com uma persistência histérica.
Amaro lia até tarde, um pouco perturbado por
aqueles períodos sonoros, tímidos de desejo; e no silêncio
por vezes, sentia em cima ranger o leito de Amélia; o livro escorregava-lhe
das mãos, encostava a cabeça às costas da poltrona,
cerrava os olhos e parecia vê-la em colete, diante do toucador desfazendo
as tranças; ou, curvada, desapertando as ligas, e o decote de sua
camisa entreaberta descobria os dois seios muito brancos. Erguia-se, cerrando
os dentes, com uma decisão brutal de a possuir.
Começara então a recomendar-lhe a leitura
dos Cânticos de Jesus.
-Verá, é muito bonito; muita devoção!
- disse-lhe ele, deixando-lhe o livrinho uma noite no cesto de costura.
Ao outro dia, ao almoço, Amélia estava
pálida, com as olheiras até o meio da face. Queixou-se de
insônia, de palpitações.
- E então, gostou dos Cânticos?
- Muito. Orações lindas! - respondeu.
Durante todo esse dia não ergueu os olhos para
Amaro. Parecia triste - e sem razão; às vezes o rosto abrasava-se-lhe
de sangue.7
Se palidez, olheiras, insônia e palpitações
são suspeitíssimos efeitos de leitura para a castidade de uma
donzela, leituras e sintomas se multiplicam e se agravam em O primo Basílio,
que já se abre em meio a uma cena de leitura: Jorge lê Luís
Figuier e Luísa passa os olhos pelo Diário de Notícias.
O narrador cuidadoso informa, logo depois, que Jorge preferia Luís Figuier,
Bastiat e Castilho a Musset e Dumas Filho, definindo-se, assim, o marido de
Luísa, pela adesão a um cânon não romântico
e bastante verossímil na estante de um engenheiro.
Na ausência de Jorge, Luísa, pauta suas leituras
pelo acervo rejeitado pelo marido: lê A dama das camélias,8
descrito como livro um pouco enxovalhado , que ela apanha por detrás
de uma compoteira. A medida que o romance se desenrola, o enxovalho do volume
respinga em sua leitora, não obstante as mãos de Luísa
também empunhassem a impoluta Ilustração Francesa
e a elegante Revista dos Dois Mundos .
Esta apresentação bastante detalhada dos livros
por entre os quais se movem as personagens queirosianas faz com que a leitura
desempenhe papel importante na organização do romance, além
de ser peça fundamental na caracterização das personagens.
.
A força da leitura na composição da personagem
é tal que somos informados, logo no começo da história,
que Luísa lia muitos romances e tinha uma assinatura na Baixa, ao mês
. E mais: o narrador mapeia, através de mudança nas preferências
literárias de Luísa, alterações em seus valores
e comportamentos .
Confirmando o papel central que a leitura desempenha na composição
de Luísa, é ainda a ela que o narrador recorre, em discurso indireto
livre, para caracterizar diferentes estados de espírito da protagonista:
numa Luísa casada, adúltera e já nas malhas da chantagem
de Juliana, sobrevive a antiga leitora de W. Scott, que tem saudades da leitora
romântica que foi:
Que diferente sua vida teria sido - desta agora tão
alvoroçada de cólera e tão carregada de pecado! (...)
Onde estaria? Longe, nalgum mosteiro antigo, entre arvoredos escuros, num
vale solitário e contemplativo; na Escócia, talvez, país
que ela sempre amara desde as suas leituras de Walter Scott. Podia ser nas
verdes terras de Lamermoor ou de Glencoe (p.237).
A expressão do desejo valer-se de livros e de leituras,
e articular-se em discurso indireto livre que entrelaça as vozes do narrador
e de sua personagem, aprofunda na tessitura das vozes do livro, a importância
que a leitura tem nesta obra de Eça. Isto se confirma quando se vê
que também Basílio é dado a conhecer aos leitores pelo
que lê. O narrador informa que sua estante incluía Mademoiselle
Giraud ma femme; La vierge de Mabille; Ces Frippones! Mémoires
secrètes d'une femme de chambre, acervo cujos títulos sugerem
a figura de um libertino cuja licenciosidade não se atenua pela leitura
de um elegante Manuel du chasseur ou do Figaro, versão
masculina da Revista dos Dois Mundos.
A leitura que se encena em O primo Basílio não
contribui, entretanto, apenas para a constituição individual das
personagens. Leitura e literatura estão em cena ao longo de todo o romance,
ao lado de outras formas de comunicação, enquanto matéria
e expressão de um imaginário coletivo e uma linguagem social.
Notas
1
Versão anterior deste texto foi apresentada no III Encontro Internacional
Queirosiano realizado entre 19 e 21 de setembro de 1995 em São Paulo
e foi aceita para publicação em seus Anais.
2
Assis, Machado de. O Protocolo. p. 1863.
3
Apud Polêmicas de Eça de Queirós. Prefácio e recolha
de João Luso. Dir. Jaime Cortesão. (Col. Clássicos e
Contemporâneos). Lisboa, Dois Mundos. p. 60.
4 Queirós, Eça de. O primo Basílio.
São Paulo, Ática, 1993. (Série Bom Livro). Todas as citações
são extraídas deste volume, indicando-se, entre parêntesis,
após a transcrição, a página respectiva.
5
Machado de Assis. Obra completa, 3 v. Rio de Janeiro, José Aguilar,
v. 3, 1962. Todas as citações são extraídas deste
volume, indicando-se, entre parêntesis, após a transcrição,
a página respectiva.
6
Barreto, Fausto e Laet, Carlos de. Antologia Nacional. 6. ed. Rio de
Janeiro, Francisco Alves, 1913. p. 215.
7
Eça de Queirós. O crime do Pe. Amaro. São Paulo,
Ática, 1982. (Série Bom Livro). Entre parênteses, após
a transcrição, a página respectiva.
8
Publicado como romance por Dumas Filho em 1848, A dama das camélias
foi encenada em 1852. A extrema popularidade da história de Marguerite
Gautier e Armand Duval é responsável pela sua transcrição
em diferentes mídia ao longo do tempo. Nela se inspirou a ópera
La Traviata (Verdi, 1853, com libreto de Giuseppe M. Piave) , que teve
várias encenações com Sarah Bernard e Eleanora Duse,
que inspirou em 1936 filme estrelado por Greta Garbo.