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Resumo: Rosana Cássia Kamita examina a obra de Helena Kolody, membro da Academia Paranaense de Letras, hoje com 80 anos, o primeiro autor a escrever haikais no Paraná. Cita diversos poemas que utilizam o haikai, o tanka (variante) e a religião como forma e conteúdo. Mostra o amadurecimento da poetisa, sempre na linha espiritual e de apreciação da natureza, e seu reconhecimento por Paulo Leminski e por Andrade Muricy, ambos paranaenses. Texto:
Documento sem título
A sensível percepção de mundo em
alguns poemas de Helena Kolody, de 1941 a 1951
Rosana Cássia Kamita
Helena Kolody nasceu em 1912 no Paraná. Primogênita de imigrantes
ucranianos, ela mesma assim nos conta em seus versos:
Vim da Ucrânia valorosa,
que foi Russ e foi Rutênia.
Vim de meu berço selvagem,
lar singelo à beira d'água,
no sertão paranaense.
Feliz menina descalça,
vim das cantigas de roda,
dos jogos de amarelinha,
do tempo do "era uma vez..."
Exerceu apaixonadamente a profissão do magistério, a qual foi
muito importante para sua formação e para a qual a Escola Nova
de certa forma colaborou para seu pioneirismo e arrojo. A Escola Nova foi um
movimento eclético e de origens muito complexas, mas é inegável
que recebeu certas idéias pedagógicas, como as de Rousseau, que
influenciaram uma época e cujos ecos ainda se fazem ouvir. São
numerosos os pedagogos que, influenciados pela doutrina do Emílio , contribuíram
na renovação dos conceitos e das normas educacionais. Um de seus
princípios era o de que se houvesse um interesse vital, criar-se-iam,
também, as técnicas próprias para satisfazê-lo: "Emílio
aprenderá a ler quando receber cartas e sentir a necessidade de compreendê-las;
todo o papel do mestre será ajudá-lo a encontrar os meios de satisfazer
essa necessidade." Esse naturalismo pedagógico leva à exaltação
da natureza humana, de suas virtudes, sua bondade natural, seu poder; idéias
importantíssimas em qualquer época, mas principalmente naquela,
tão marcada por rupturas. É autora de numerosos livros, a maioria
editada com seus próprios recursos. Antes dos seus livros, no entanto,
seus poemas eram publicados em jornais e revistas. Seu primeiro poema intitulava-se
"A Lágrima". Ela contava então com 16 anos. Seu primeiro
livro publicado intitulava-se "Paisagem Interior", de 1941, e, após
esse, muitos outros foram escritos.
A poetisa mostra-se sempre muito sensível em perceber o belo no que
aos nossos olhos não passaria de singelo. Lendo seu poema "Infância",
o leitor é levado pela sinestesia dos versos e sente-se, por que não
dizer, levado a evocações de sua própria infância:
INFâNCIA (1951)
Pão feito em casa,
Com mel dourado,
Cheirando a favo.
No campo, recendente a camomila.
Alegria de correr até cair.
Do tempo, só se sabia
Que no ano sempre existia
O bom tempo das laranjas
E o doce tempo dos figos...
Seu delicado olhar de poetisa percorre paisagens da natureza guardadas em sua
memória, parte de seu cotidiano e que a inspirou em muitos de seus versos.
Uma dessas imagens naturais refere-se ao Rio Negro, que aparece em símbolos
e imagens em seus versos:
RIO DE PLANÍCIE (1941)
Minha vida é um largo rio de águas mansas
FIO D'ÁGUA (1945)
Não quero ser o grande rio caudaloso
Quero ser o cristalino fio d'água
No início de sua caminhada como poetisa, Helena Kolody deixa-se levar
espontaneamente, seus versos refletem seu estado de alma, com tons oníricos
e outros telúricos, repletos de vivas tonalidades emocionais. São
justamente esses os versos tratados aqui. Sem o apego formal, passam a impressão
de um relato de vida, feito de uma maneira extremamente doce, de olhos que perpassam
paisagens, situações, sentimentos perante a vida. Em seu relato,
ela diz que sempre gostou do novo, do que representava um desafio, que a impulsionava
na juventude. Helena Kolody enfatiza a juventude, conta sobre como nessa época
os jovens paranaenses se reuniam e liam sobre tudo em jornais e revistas, discutiam
sobre o conteúdo dos mesmos e faziam críticas aos respectivos
textos. Ressaltou também a importância de se viver com pessoas
de sua própria idade. Seus versos encantam quem se deixa tomar pela emoção
e coloca de lado, pelo menos por alguns instantes, o ceticismo:
SONHAR (1941)
Sonhar é transportar-se em asas de ouro e aço
Num vôo poderoso e audaz de fantasia.
ELOGIO DO POETA (1941)
Quando os homens viram os olhos do poeta,
Acharam em sua luz a luz do próprio olhar
E no seu sonho o próprio sonho refletido.
No ritmo de seu verso, então, reconheceram
A canção que cantariam, se soubessem cantar.
Música submersa, de 1945, traz poemas referentes à desumanidade
da II Grande Guerra. Ocorre novamente a identificação da poetisa
com a dor alheia, captando a ela e a sua mesma numa simbiose. E como ela mesma
afirma, quando se é jovem sente-se com mais intensidade as emoções:
AMPULHETA DA HORA PRESENTE
A hora terrível passa,
Esmagando o coração da humanidade.
Helena Kolody relata um acontecimento que revela o poder da palavra e a responsabilidade
gerada por ela. É a história de uma jovem depressiva que tentaria
o suicídio. Antes do gesto trágico, abriu o livro que a poetisa
lhe dera de presente. Leu um de seus poemas, "Prece", e desistiu de
seu intento. Helena Kolody escreveu vários poemas depressivos, mas por
sorte não foi um desses o escolhido. Ela diz que depois disso seus poemas
se tornaram mais abertos, mais otimistas. O poema "Prece" recebeu
duas versões musicais e um "imprimatur" da igreja, e é
lido como se fosse uma oração:
PRECE (1941)
Concede-me, Senhor, a graça de ser boa,
De ser o coração singelo que perdoa,
A solícita mão que espalha, sem medidas,
Estrelas pela noite escura de outras vidas
E tira d’alma alheia o espinho que magoa.
Para ela, o amor ficou sendo só um sentimento, um sonho, e Helena Kolody
soube muito bem transformar esses sentimentos em palavras melodiosas, o que
levou alguns poemas seus a serem musicados. São versos carregados de
um lirismo puro, que embalam reminiscências de amores de outrora (até
mesmo a própria palavra tornou-se antiga) quando não era vergonhosa
a expressão verdadeira dos sentimentos:
CÂNTICO ( 1941)
A luz do teu olhar é a estrela solitária
Da noite deste amor, que é feito de silêncio.
VITÓRIA ÍNTIMA (1941)
Como a penumbra da noite,
A meditação desceu em seu olhar
E acendeu dentro de mim a lâmpada serena.
Em 1941 publicou seus primeiros haikais, sendo criticada com os argumentos
de que aquilo não era soneto, não tinha rima, não era poesia.
Mas gostava de desafios, por isso fazia haikais mesmo sendo criticada. No entanto,
a crítica para Guilherme de Almeida já não era tão
severa... talvez por ele ter colaborado para o abrasileiramento do haikai, como
por exemplo atribuir um título ao terceto, definição de
estrutura métrica e utilização de rimas, ou, por que não
dizer? Ter composto haikais "parnasianos" .
Não participou do Movimento Modernista por ser retraída, mas
buscava sempre manter-se informada e tinha consciência da modernidade
de seus versos. Nessa época o Movimento Modernista buscava uma superação
dos pressupostos que ancoraram a Semana de Arte Moderna. Alguns poetas já
tinham trilhado um caminho diferente dos versos parnasianos, restando, pois,
amadurecer as idéias já plantadas.
Em seu livro Música Submersa (1945), figura o haikai "Pereira em
flor", o qual foi elogiado por Carlos Drummond de Andrade, que diz ter
ficado feliz com poemas como esse, "em que à expressão mais
simples e discreta se alia uma fina intuição dos ‘imponderável’
poéticos". Conheça-se o poema:
PEREIRA EM FLOR (1945)
De grinalda branca,
Toda vestida de luar,
A pereira sonha.
A respeito desse haikai, a poetisa relata como surgiu-lhe a inspiração
para escrevê-lo:
"Eu morava na Rua Carlos de Carvalho. Uma noite, ao sair da casa de uma
amiga, dei com aquela pereira completamente florescida, banhada pela luz da
lua cheia. A beleza do quadro foi um impacto na minha sensibilidade. Fiz o poema
bem mais tarde. Associei a pereira com uma noiva: a noiva toda vestida de branco,
sonhando, com a pereira ao luar."
Só voltou ao haikai quando Paulo Leminski descobriu-a como primeira
pessoa a fazer este tipo de poesia de origem japonesa no Paraná. Tornou-se
"haijin" (pessoa que cultua o haikai), com o nome artístico
de Reika, concedido em 1993 pela sociedade japonesa, e que significa "perfume
da poesia":
ARCO-ÍRIS (1941)
Arco-íris no céu.
Está sorrindo o menino
que há pouco chorou.
PRISÃO (1941)
Puseste a gaiola
Suspensa de um ramo em flor,
Num dia de sol.
A poetisa escreveu:
"Antigamente eu me derramava em palavras. Um dia, o Dr. Andrade Muricy,
um paranaense que era crítico de arte no Rio de Janeiro, aconselhou-me:
‘você vai muito melhor no poema curto. você quer encompridar
e, às vezes, você dilui o poema ou se repete. você tem talento
para a síntese’. Daí em diante, comecei a cortar os excedentes,
deixando só o sumo, o essencial."
Helena Kolody tem a capacidade de transformar em palavras as imagens captadas
em sua existência, e mais, é capaz de reduzir essas mesmas imagens
em poucas palavras, sem que elas percam sua magia. Seus haikais são relâmpagos
de palavras, rápidos e luminosos. A poetisa consegue unir subjetividade
e objetividade, numa viagem de versos repletos de significados.
Ainda em relação à sua face japonesa, há que se
destacar sua incursão no tanka (poema japonés, com a mesma estrutura
do haikai, acrescido de mais dois versos heptassílabos). Não pertencem,
no entanto, à época aqui estudada. Apenas para que se conheça:
AQUARELA (1993)
Sol de primavera.
nêu azul, jardim em flor.
Riso de crianças.
Na pauta de fios elétricos,
uma escala de andorinhas.
Foi eleita para a Academia Paranaense de Letras aos oitenta anos de idade e
a segunda mulher admitida no fechado círculo masculino. Ainda vive em
Curitiba e alega que o sonho continua sendo sua matéria. Por essa alegação
percebe-se a grandeza de suas intenções, o quanto acredita que
o mundo moderno não possa sufocar os sentimentos mais nobres do ser humano,
que apesar das vicissitudes não reduziu-se ainda a um ser robotizado
e, espera-se, ainda tenha capacidade para perscrutar os seres e retirar uma
essência do belo, na sua acepção mais ampla.
Muitas palavras tão carregadas de sentido na língua portuguesa
são massacradas, de tal forma que perdem o sentido, chegando a tornar-se
piegas falar em "amor", por exemplo, graças a inábeis
escritores, que pela sua falta de talento afugentam os leitores, os quais acabam
se tornando traumatizados por este mau uso de palavras muitas vezes tão
expressivas. Mas Helena Kolody faz o resgate dessas palavras e pelas suas mãos
elas readquirem todo o seu verdadeiro significado.
Ela afirma que "São as palavras que decidem a sorte dos homens
e o destino das nações." Portanto, que sua palavra:
CONSOLE
Se a ambição da riqueza te extenua,
Olha o jogo das crianças na calçada.
Somente o jogo é seu, nem tem mais nada...
De riqueza não sei maior que a sua.
(Tesouro, 1951)
ENCAMINHE
Sonhar é Ter um grande ideal na inglória lida:
Tão grande que não cabe inteiro nesta vida,
Tão puro que não vive em plagas deste mundo.
(Terceto final de "Sonhar" , 1941)
E seja uma luz no mundo, um instrumento de paz e fraternidade.
Ensina-me, Senhor, a palavra exata,
A grande palavra reveladora e fecunda
Que devo clamar, clamar e clamar
Para acordar, nos que adormeceram
A consciência do seu destino maior"
(Apelo, 1941)
Sem dúvida, acredita Helena Kolody no poder da palavra, e o poeta pode
ser considerado o "escolhido" para fazer dela um instrumento de transformação
do mundo. A responsabilidade é enorme, mas alguns artistas da palavra
conseguem levá-la a contento e vão gravando pelo tempo sua idéias
que geram novas idéias e assim sucessivamente num trabalho longo, árduo
e necessário. Em "Canto místico" (1941), a poetisa confessa
a insuficiência da palavra humana e a impotência pessoal diante
do poeta máximo, o Universo, e diante de seu poeta, Deus. Seguem-se as
duas primeiras estrofes desse poema:
Aqui estou, Senhor, no meio desta nave
Para cantar em teu louvor.
Minha voz é prisioneira da garganta:
Conhece a gama dos sons e não pode cantar.
Há vibrações sonoras em meus nervos.
Mas a voz ausentou-se de meu ser.
Helena Kolody é sem dúvida alguma um expoente na literatura paranaense,
literatura essa que se encaminhou inicialmente de forma tímida. Citemos
como exemplo os românticos, que não tiveram ali um público
que os pudesse avaliar. No entanto, no Simbolismo escritores e público
encontraram-s,e e a partir de então vivencia-se a literatura, que amadurece
no Estado. Contudo, não podemos limitar sua obra apenas à esfera
onde surgiu. Sua obra é merecedora de destaque em qualquer espaço,
seja pelo seu pioneirismo e arrojo já citados, seja pela qualidade de
seus versos, seja pelo impulso que promoveu nas letras paranaenses e muitos
outros motivos que aqui poderiam ser listados. Portanto, que seus versos sejam
lidos, apreendidos, analisados e principalmente, sentidos.
Referências Bibliográficas
BELLO, Ruy de Ayres. Pequena História da Educação. São
Paulo: Editora do Brasil, 1978.
BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. São
Paulo: Cultrix, 1994.
Conversas por telefone com D. Helena Kolody.
CRUZ, Antonio Donizeti da. "Tankas e kaicais: uma leitura de Reika, de
Helena Kolody".
FRANCHETTI, Paulo. "Guilherme de Almeida e a história do haikai
no Brasil".
http://www.angelfire.com
http://www.morretes.pr.gov.br/artistas.htm
KOLODY, Helena. Sinfonia da vida. Organização: Tereza Hatue de
Rezende. Curitiba: Letraviva, 1997.
---. Viagem no espelho. Curitiba: Criar, 1988.
LOBO, Luiza. O haikai e a crise da metafísica. Rio de Janeiro, Numen,
1992.
NASCIMENTO, Noel. "A propósito de Helena Kolody".
REBOUL, Olivier. Filosofia da Educação. Tradução
e notas de Luiz Penna e J. B. Penna. São Paulo: Nacional, 1978.
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